8 de fevereiro de 2014

Aleatoriedades e um café, por favor #20 - Qualquer coisa pode acontecer

POSTADO POR EM 8 de fevereiro de 2014

Hi, mates :)

Tudo bem com vocês? 


                             

Qualquer coisa pode acontecer.


Sentada nos degraus de casa, entre um cigarro e uma xícara de café, apenas trabalhando, 08/02/2013
Ao som de Young Folks, Peter Yorn – Você deveria ouvir.


Hoje estou fatalista.
Normalmente, as pessoas quando acordam tem uma espécie de ritual – na realidade, toda nossa vida é um ritual, mas foco no acordar.
Levantam da cama, olham para o lado vazio/lado cheio, analisam aquilo com um sorriso ou um olhar triste, espreguiçam, resmungam que querem dormir mais um pouco, talvez até durmam e aí, num piscar dos olhos, tem o primeiro pensamento do dia, que pode ser algo profundo como: ‘Preciso comprar cereal’ ou algo extremamente Bukowisk “Eu preciso fazer xixi”, talvez algo a la Shakeaspeare: “Se em teus olhos encontrar a paz, saberei o que é amor.”
Hoje, ao abrir meus olhos, o primeiro pensamento que tive foi: E se esse for meu último dia de vida? Esse simples pensamento me apavorou. Me sentei na cama com a velocidade de um personagem de filme de terror após acordar de um pesadelo com Freddy Krueger. Estava inconformada saindo dos lençóis. Hoje não pode ser meu último dia. Tenho tantas coisas para fazer. Preciso arrumar o telhado, levar o Holmes para passear, preciso consertar o motor do carro, não posso viver de táxi ou bicicleta, também tenho que buscar a roupa na lavanderia, tenho algumas contas atrasadas para pagar. Não posso morrer, tenho os textos semanais para a revista e meu livro para terminar, o curso de Espanhol para concluir, uma nova faculdade para fazer, uma tatuagem também. Sabe aquela viagem que ganhei das milhas? Então, preciso fazer nas minhas próximas férias – que é quando mesmo? Nem vamos começar a falar das arrumações, preciso urgentemente arrumar meus cd’s e livros em ordem alfabética, roupas e sapatos por ordem de prioridade, minha vida também precisa de uma arrumação imediata – e a das minhas amigas.
Tenho compulsão por problemas.
Esse pensamento me pegou, com tudo como um laço me amarrou, me apertou e me prendeu em um nó de marinheiro pelo resto do meu dia. Fui para o trabalho a pé, era uma boa caminhada de 15 minutos, mas precisava disso, entre uma escorregada na calçada aqui e outra ali, aproveitei o clima de neve na cidade para pensar, bebendo um mocha menta da minha cafeteria favorita, observava o movimento da cidade, as pessoas, seus costumes, suas vidas, os carros passando as estradas, o som da vida, o som da morte, o sinal fechando, abrindo, fechando, abrindo, a espera infinita para a sua vez de atravessar, um olhar desconfortável trocado com um estranho, o desejo de retribuição do olhar de outro, o som alto de música eletrônica vinda de uma academia, os sussurros dentro de uma cafeteria, o silêncio de minha mente e o batuque pesado em meu coração.

Se esse fosse nosso último dia no mundo, e soubéssemos disse graças a uma força sobrenatural, gênio, Deus, Deusa, visita de alguém do futuro, Time Lord ou simplesmente uma vidência, o que você faria?

Eu sei o que Anita faria.
Ela ligaria para o ex. Diria toda a verdade. Hoje é seu último dia na terra, não importa como ela sabe disso, ela apenas sabe, quando o relógio bater 00.00 ela não estará mais nesse plano – quem sabe em qual estará – e ela só tem um desejo: passar seus últimos momentos com aqueles que ela ama. Os pais estão em outro país, distantes demais para dar tempo de uma despedida, com as amigas ela já esteve, agora só restava ela. Não foi seu primeiro amor, mas foi seu último e não há nada mais doce do que o último amor.

Bren iria correr nua na 5th avenida, cantando ‘Je Ne Regrette Rien’ da Piaf,  estamos em uma grande cidade, ninguém nem notaria que ela está nua e sim, que ela está nua correndo em uma quase nevasca cantando perfeitamente uma música de Piaf. Após isso, iria se vestir com o seu melhor vestido de gala, iria para o bar mais badalado, beberia todos os drinks do cardápio, daria em cima de todos os caras, iria aproveitar o gostinho de ser desejada, dançaria, cantaria e deixaria cada um deles com a ilusão que poderia ser o seu homem. Voltaria para o seu loft, ligaria para mim e as garotas, daria para cada uma de nós algo sentimental, para mim ela daria aquele chapéu meio vitoriano, suas maquiagens e o cordão de camafeu, que ela tem desde a época da faculdade. Depois de todos os presentes, um drink, algumas memórias, iríamos embora e ela se despediria dele, o único cara que amor. Não sei como. Talvez ligaria, mandaria um vídeo, uma mensagem, nada de cartas, isso é muito antiquado para Bren. E assim ela partiria, sem alardes, dramas e violinos. Alguém com um espírito tão barulhento, vivo e livre, ela iria silenciosamente, como uma brisa em uma tarde de verão, quente e ligeira, sem nem ser percebida.

Bem diferente da Amanda, ela definitivamente faria dessa partida dela o fim de uma tragédia Shakeasperiana. Ela daria todos os seus bens para alguma instituição de caridade, faria um testamento deixando seus pertences mais amados aos seus entes queridos, escreveria longas cartas de despedidas, deixaria vídeos para os gêmeos, faria amor com o marido nos primeiros raios dos dias e faria sexo de um modo vulgar, descartável e memorável próximo ao seu desenlace. E ela não esperaria dar 00.00, ela dramaticamente, se mataria antes, se jogando da varanda do seu apartamento luxuoso em frente ao Central Park. Alguém como ela, jamais permitiria perder a alma para a Morte, a alma era sua, ela é a única que poderia ter esse direito.

E eu ...
Eu não quero que esse momento segue.
Mesmo chegando, eu não sei o que faria.
Dei mais uma volta no quarteirão do meu trabalho, pensando e repensando sobre.
Se hoje fosse meu último dia na Terra, o que eu faria? Escrevi em uma página branca do Word. Escrevi no meu bloco de notas. No meu caderno de anotações. Na minha agenda. No meu Ipad. Mandei por mensagem para minha mãe. Anotei num post it. Num guardanapo. Anotei na minha pele feito tatuagem.
Eu ...
Eu preciso fazer um safari na África.
É.
E pular de paraquedas.
Voar de asa delta.
Ensinar inglês em outro país.
Viajar sozinha para um lugar que não sei nada.
Parar de fumar dois maços de cigarro por dia, pois provavelmente é isso que vai me matar. Apaguei o cigarro no copo de café, decidida. Acendi outro, arrependida.
Preciso encontrar ele. É, o homem que me fará ver filmes românticos, ouvir músicas, ler livros que nunca leria, viajar para lugares que nunca iria, ir contra todos os meus ideais e pessoas, me desafiar – e o desafiar –, que me fará experimentar comida indiana mesmo sabendo que vou odiar e preferir sempre comida japonesa, o cara que me fará raspar as pernas todos os dias e usar perfume nos pontos que ele mais gosta de mim e com ele descobrir o que diabos é esse amor.
Preciso viajar mais.
Eu não estou nem em 1/3 de minha vida, fiz tantas coisas, conquistei várias, mas ainda tem tanto a fazer.
Tenho umas 8 línguas para aprender.
Uns trocentos lugares que quero conhecer.
Gostaria de fazer uma viagem a la mochileira: um carro, uma mochila, um companheiro.
Quero um labrador.
Quero me casar.
Quero me separar.
Quero voltar.
Quero filhos.
Três.
Quero sofrer um acidente de carro, pensar que vou morrer, que matei alguém e quando ver, nada aconteceu, só bati num poste, vamos sobreviver.
Quero fazer vídeos engraçados com os meus amigos e família.
Quero ser uma mãe descolada, como a minha.
E uma tia que estraga a educação dos pais.
Quero escrever um livro erótico. Não faça essa cara de surpresa.
Meu deus, quero tentar o kama sutra todo.
Quero também parar de usar as redes sociais, isso destrói o cérebro.
Como o cigarro. Apaguei o cigarro. Acendi outro.
Quero ler mais.
Quero escrever mais.
Quero conhecer meus ídolos.
Quero aprender a fazer música.
Para isso tenho que aprender música.
E a tocar um instrumento.
Talvez violão.
Mas eu ficaria uma graça com uma flauta.
Uh. Quero comprar meu primeiro chanel. E um kit de maquiagem da Sephora, só pelo prazer de dizer que eu comprei, com meu dinheiro, que tenho bom gosto e saco de moda. Mesmo não tendo a menor idéia de diferenciar um bolero com um top cropped.
Quero mais azul na minha vida e menos laranja.
Essa cor da fome.
Uh. Quero sentir mais fome. Adoro comida.
Quero andar mais de bicicleta e menos de carro. Já faço isso ... mas queria fazer para o resto da vida.
Quero mais livros, filmes e música.
Quero menos obrigações, regras e ordens.
Quero mais desordem, bagunça e memórias.
Sorrisos no lugar de dúvida.
Gargalhadas no lugar de tristeza.
Abraços como cura para todos os males.
Olhares e um ‘oi’ no lugar de cantadas baratas.
Iniciativa.
Histórias que não começam com ‘era uma vez’ e sim com, ‘ e essa é a história de fulana de tal que conquistou tudo que queria e mais um pouco’.
Quero histórias que não tenham fim.

Eu quero mais ...

Quero mais tempo.
  
                                                                                 Ann acredita que sempre há uma saída para tudo em nossas vidas - até mesmo para a morte.
***
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19 comentários:

  1. Este texto cativou-me.
    Não sei bem porquê, pôs-me a pensar, estava a precisar de uma coisa assim.
    Muito amor*

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    1. Hiiii!
      Fico extremamente feliz em saber que o texto lhe cativou. Espero profundamente que as minhas palavras te movam no momento necessário.
      Um beijão!

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  2. Essa é uma maneira interessante de fazer uma lista com as coisas que você quer fazer antes de morrer. Aquelas que você realmente pode concretizar, porque se fosse como a minha lista é, aposto que estaria aí ser Companion de algum Doctor e viajar na Tardis até a Terra Média para se juntar à trupe de Thorin e Bilbo. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Amei o seu texto, Barbs, sempre são inspiradores e gostosos de se ler.
    Bjão enorme :*

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    1. Ah, Sofs!
      Eu acredito que uma lista de coisas que sabemos que não podemos concretizar serve também de muita utilidade para nós - e nossa imaginação. Como um desafio, sabe? Talvez não consiga ser a companion de algum Doctor que me levaria a Terra Média para me encontrar com Thorin, Bilbo e co, mas definitivamente, a ideia pode me desafiar a minha própria aventura ou quem sabe, uma nova história a escrever. Sempre vale a pena tentar, sempre.
      Obrigada pelo carinho!
      Um beijão!

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  3. Ann sempre inspirada. Barb como você escreve com maestria, esse texto é cativante, e poe qualquer um a pensar sobre os planos da vida, tudo depende do que escolhemos fazer, ou não de nossas vidas. Não é atoa que todos tem sua metas e concretizações de início de ano, e esse ritual se estenda por anos e anos até a inevitável, ou não, morte *-*

    Beijoos.
    Lauro,
    http://entreversosepaginas.blogspot.com.br/

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    1. Hiiii!
      Fico tão feliz em saber que Ann consegue te passar tão profundos sentimentos.
      Espero que ela sempre possa ter passar essas sensações - e talvez, te ajudar quando for necessário.
      Concordo totalmente com sua visão. Ann apenas mostra, que nós, sempre temos planos, mas colocá-los em prática é só uma questão de escolha.
      Muito obrigada pelo seu carinho.
      Um beijão!

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  4. Este é um assunto sempre tão delicado. Acho que todos têm mil ideias do que gostariam de fazer antes de morrer.. principalmente se soubessem que hoje é seu último dia.. mas tenho certeza de que na prática as coisas não sairiam conforme o combinado. Eu mesma acho que travaria, da mesma forma como quando não consigo Destruir o meu Diário. É difícil colocar em prática os sentimentos e pensamentos somente idealizados. Lindo texto. Beijos, Mi

    www.recantodami.com

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    1. Hiiii!
      Adorei a sua visão Mirelle.
      Tem muitas verdades em suas palavras. Acho que é natural do ser humano se sentir sem saída quando há uma resposta definitiva para algo que ele não aceita. Como o fim. A morte, por mais certa que seja, nunca será aceita por nós, mesmo com crenças religiosas - ou sem elas.
      Acho que de todos os males, o do medo de morrer e não conseguir fazer o que desejava, é o maior deles.
      Obrigada pelas suas palavras e carinho.
      Beijão!

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  5. Adorei o texto, Me fez refletir sobre o que eu faria se soubesse quando seria meu último dia de vida...
    Já vou começar a fazer a minha bucket list e começar a riscar coisas dela o mais rápido possível.
    Parabéns pelo texto!

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    1. Oba oba oba!
      Ann incentivando a construção de Bucket List, se puder, divida conosco um trecho, vou adorar saber dos seus sonhos e Ann também, que definitivamente, vai querer falar sobre isso.
      Muito obrigada pelo carinho!
      Um beijão!

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  6. Nossa que lindo , quase chorei , é muito profundo , palavras que carregam emoção , verdades , e acima de tudo , muita duvida , a morte é algo tão misterioso , e se .. e se .. sempre o e se .. Eu adorei .. Fez refletir , a tantas coisas que queremos fazer e por conta de bobagem que geralmente toma toda o nosso tempo não fazemos ..

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    1. Como eu sempre digo 'e se...?" são duas palavrinhas muito perigosas na mesma sentença, imagina quando estão envolvidas num assunto tão sombrio como a morte.
      Adorei saber a sua opinião Raquel!
      Espero que Ann tenha mexido com você.
      Um beijão!

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  7. Esses textos da Ann sempre me fazem refletir um monte sobre certos assuntos. Por acaso ela não tem um livro só dela, digo, a Barbara Herdy não escreveu um livro tendo a Ann como personagem ou algo assim?

    Beijinhos

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    1. Hiiii!
      Adorei saber que a Ann te faz refletir sobre diversos assuntos. Ela ficaria super contente de saber que suas palavras podem ajudar as pessoas desse modo.
      Bom, confesso que já passou na minha cabecinha hiperativa de autora escrever um livro sobre a Ann - e suas desventuras-, quem sabe um dia teremos algo a lá 'As vantagens de ser invisível' encontra 'Sex and The City', quem sabe, quem sabe ...
      Um beijão e muito obrigada pelo carinho e a pergunta, é claro <3

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  8. Que inspiração!
    me fez refletir e pensar sobre minha vida! Tem tanta coisa que a gente gostaria de fazer antes do fim. Gostei muito

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    1. Hiiii!
      Fico muito feliz de saber que Ann te levou a refletir sobre o assunto. Que tal, como ela, fazer uma bucket list diferente, huh?
      Muito obrigada pelo carinho e um grande beijo!

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  9. Nossa você estava bem inspirada né? Ficou perfeito, fez com que todos refletíssemos sobre nossas vidas, o que iriamos fazer se fosse nosso ultimo dia, fez com que pensássemos sobre o que é mais importante também, eu amei.
    Beijos!!!

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    1. Hiiiiiiiiiiiiiiiiii!
      Esse é um assunto que mexe muito comigo, mas confesso, que nunca havia conseguido escrevê-lo com tanta sinceridade e confiança como consegui nesse texto. Saber que consegui mover, não apenas vocês, mas várias pessoas a refletirem sobre o assunto me deu uma sensação de dever cumprido, estou muito feliz.
      Muito obrigada pelo carinho <3
      Um grande beijo!

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  10. Muito interessante. De alguma maneira, qualquer pessoa que lê isso começa a refletir sobre muitas coisas.

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