21 de março de 2015

[O Amor Não é Pra Mim] - Capítulo 01 (01x01)

POSTADO POR EM 21 de março de 2015

Oi, galerinha. Tudo bem?


Prontos para o primeiro episódio de O Amor não é pra Mim? Semana passada vocês conferiram o prólogo (link aqui) e agora finalmente a história vai começar. Preparados?!



Ah, meu Deus, eu poderia realmente ter enxergado a oportunidade de conseguir me sobressair na minha primeira entrevista dos sonhos. Dentro de mim há um tremor quase que absoluto e um pensamento meio que aparvalhado se instaurando enquanto caminho por uma comprida calçada de pedras vintage e divido espaço com mulheres granfinas de agasalhos Delacour, calças leggings e sapatos salto agulha Versace. 

Por um minuto, me deixo ficar admirada pela elegância dos passos, pelo porte descomunal dos homens que desfilam exibindo ternos de tweed bem cortados e as pastas de negócios, pelo interesse das crianças que correm agitadas nas praças e pela desenvoltura modelo século XVIII dessa parte da cidade do Rio de Janeiro. Indiferente às mudanças, essa parte da cidade é, em geral, atrasada e calma, como se modernidade fosse impedida de chegar até às residências e baixos edifícios com pintura descascada e, na maioria das vezes, de um amarelo-pérola pouco cintilante. 

Há algo de muito, muito chique no contraste. Acima de mim, um sol escaldante e com pouquíssimas nuvens espessas se espalham através do firmamento límpido. Estou consideravelmente entusiasmada com o ar carioca e a hospitalidade que emana do olhar das pessoas que passam por mim me deixa delicadamente inebriada e surpresa; entro no que parece ser um pub, com a entrada ampla, paredes altas, mesas distribuídas ao redor de uma pista de dança cascarrenta e luzes pairando sobre o seu interior. 

Com pouco movimento, apenas a presença de dois ou três homens distraídos em movimentos do que aparenta ser uma conversa absurda sobre meia-idade e sua frustrada tentativa de ter encontros produtivos, eu olho para o balcão solitário e um bartender está se agachando para equilibrar várias caixas de larger.    
  
– Olá! – digo, na tentativa de ser simpática. – Poderia me dar... hum... Deixe-me pensar... ah – ergo o indicador –, que tal um lótus duplo?

Ele lentamente acomoda as muitas caixas no chão e vem até a mim, limpando as mãos com uma flanela. 

– Boa escolha para um dia difícil – acrescenta, pegando um copo, cubos de gelo, tomos de limão e pastilhas de menta. – Dia difícil, não é?

– Muito, muito difícil – digo, colocando a alça da bolsa no espaldar da cadeira. – O tipo de dia importante que está no calendário, 04 de julho, por exemplo. Você acorda todo animado, liga para os amigos, combinam de comer um hambúrguer num trailer e, à noite, está passando mal por causa da maionese estragada. 

– Já tive dias assim – responde, misturando tudo no copo e chacoalhando. – Dias para nunca mais esquecer. Particularmente, odeio dias frustrantes, desses em que nada parece dar certo e você só faz besteira.

– Você leu meus pensamentos! – exclamo, com ar de pura surpresa. – Às vezes, é melhor se recolher a uma cabana com antena parabólica, sentar sobre uma almofada e ver “Downtown Abbey”.

– Fiquei interessado nesse tal de “Downtown Abbey”. Parece chocante.

– É chocante – eu digo, toda sonhadora. – O melhor seriado dos últimos tempos. Nada comparado a diálogos sem sentido, minas explodindo e humanoides nascendo da barriga de bonecas super computadorizadas. Dá até vontade de morrer.

O lótus duplo chega até a mim e, de modo desesperado, engulo quase tudo com o calor dos meus lábios e com a voracidade sedenta da minha língua. Em dois segundos, eu já estou pedindo outro drinque igualmente parecido. Quando paro um pouco, para ter uma completa visão do pub, sinto quando uma mão voraz e pesada me toca o ombro e, no susto, eu quase escorrego da cadeira quando um homem desconhecido e ofegante me segura nos braços. 

Mal tive tempo de reagir, pois alguém estava me abraçando com uma força esmagadora.

– Não faça pergunta – o desconhecido diz, entre o fôlego e outro –, só finja ser a minha namorada.

– O quê?... – digo, gaguejando. – Mas onde é que... 

E, num pulo desajeitado sobre a cadeira, ele se senta e suas mãos me envolvem a cintura.

– Ah – uma voz de mulher decidida nos interrompe –, aí está você? 

Giro o pescoço para trás e, no mesmo instante, dou de cara com uma mulher alta e magra, vestindo um tubo vermelho sexy e usando um par de colares de esmeraldas que combinavam muito bem com os olhos. 

Ela é atraente, com cabelos negros escorrendo e beirando as costas magras. 

– Aqui estou eu – ele diz, segurando firme minha cintura, e dando um sorrisinho desengonçado –, com minha linda garota chamada... ér... chamada... – e olha para mim, num apelo silencioso e aterrorizado.

A mulher também olha para mim, com uma expressão confusa e aborrecida. Um beliscão de doer a cintura eletriza meu corpo e, como um grito de espanto, digo para ela a primeira coisa que me vem à cabeça.

– Penélope – eu solto essa, no átimo, sem graça. – A prima desleixada, estrábica e perto de se tornar a maior barítono do leste europeu. 

E estendo educadamente a mão, mas ela fica estendida no ar. Por um minuto, os dois me encaram, calados... com ela ainda mais impressionada. 

Recolho a mão, cheia de dúvidas, espanto e perplexidade.

– Então a sua namorada existe mesmo... – ela fala, num tom meio invejoso. – Eu não imaginava que seria alguém com tantas aspirações .

– Eu disse que havia encontrado alguém com grandes aspirações para preencher – e ele bate no peito – esse grande buraco que você deixou aberto. 

Estou olhando para um e outro, sem entender absolutamente nada. 

Essa conversa está sendo ridícula e saindo do controle. 

– Mas eu só não esperava encontrá-la em um lugar como este – ela diz, fazendo a maior cara de nojo. – Em um pub de beira de estrada.

– Bem – dou de ombros –, isto é um pub interessante. Olhe só o assento e aquela vitrola ali... É o tipo de espaço que deixa a gente menos acomodada e com a sensação de que ficaremos bem velhas, arrogantes, venceremos esse negócio de expectativa de vida e continuaremos saudáveis... até a chegada de uma crise de malária.

Ela está toda séria, sem expressar a menor linha de sorriso, mas o bartender mal consegue esconder uma risada no fundo do bar.

– Isso é demais para mim... realmente é – a mulher comenta e nos dá as costas. – Boa sorte com o novo ciclo de sexo, perversidade, chicotes, algemas e compras online. 

E sai praticamente desfilando pela passarela iluminada, até desaparecer por uma porta pintada de verde. Quando ninguém mais consegue vê-la, ele solta a minha cintura e solta o ar que estava aprisionado nos pulmões.

– Você pode, por favor, me dizer quem é você, aquela maluca, de onde conheço, e o que está acontecendo?

Ele abana as mãos, agitando-as desesperadamente no ar.

– Oh, desculpas pelo mau jeito e pela chegada inesperada. Eu entrei em pânico, e não tive a quem recorrer. 

– Você não pode usar as pessoas dessa maneira, cara. E se eu tivesse entendido tudo errado ou tivesse saído correndo? Você estaria na maior roubada.

Ele inspira profundamente e respira, com uma expressão aliviada.

– É tão bom que ela tenha acreditado e ido embora sem questionar.

– Aquela é a sua ex-mulher... ou outra denominação parecida?

– Uma antiga namorada, que ainda acha que sou propriedade exclusiva dela.

Dou um risinho débil e inconveniente.

– Ah, Deus, ainda existem pessoas assim? – pergunto, curiosa e virando o copo com o restante do lótus duplo. – Que enxergam seus parceiros como criaturas desligadas do senso comum? Isso é tão sem noção e fora de contexto. 

– Parece difícil de acreditar, mas ela é do tipo que “acha” que os homens não são mais do que “meros” objetos sexuais descartáveis.

Aponto com o copo, franzindo a sobrancelha e mordendo os lábios.

– Em partes, ela está absolutamente certa.

– Ah, não. Você não deu essa impressão, antes.

– Eu não costumo dizer o que penso na frente de estranhos. 

Ele olha por cima dos meus ombros e ergue a mão, para chamar o bartender.

– Deixe-me pagar alguns drinques para reparar o meu erro.

– Drinques não remendam os erros – e digo, honestamente. – Drinques deixam a gente desequilibrada, subindo em mesas frágeis e declarando o grande amor verdadeiro pelos seguidores do Elvis.

– Puxa vida, que visão mais pessimista sobre drinques.

– Não é pessimista, é realista. Acabo de estragar a minha entrevista para o cargo dos meus sonhos, a vaga para colunista da “sessão sobre relacionamentos” – faço uma careta medonha e sem sentido. – Ou seja, eu tinha tudo para conseguir, mas aí contei uma história ridícula sobre uma mãe solteira na cidade de Manhattan.

– Como é que é? – ele está de queixo caído. – Uma mãe solteira em Manhattan?

– É vergonhoso e amador, pode falar. 

– Não existem mães solteiras em Manhattan. Existem negociadoras que desfilam de saias executivas, perfumes adocicados e vendem vagas para estacionamentos.

Puta merda. Como eu fui esquecer justo desse detalhe? É a visão do inferno.

– O tiro saiu pela culatra, não saiu?

– Não, foi uma história engraçada, mas você praticamente quebrou o ritmo.

– Eu sei – digo e me encolho na cadeira –, isso foi um tremendo desastre. Eu não vou conseguir o emprego. E, para ser honesta, sou de uma cidade pequena, com família de poucos recursos, mas tenho algum dinheiro, e acabo de estragar tudo. 

– Não seja tão ruim – diz, dando um empurrãozinho de leve nos meus ombros. – Quer saber? Sei de algo que vai te deixar relaxada e mais otimista.

– Uma ótima massagem na clavícula?

– Não, não uma massagem. 

– Imitar os agudos da Alanis Morissette?

– Não é nada sobre cantar. É uma brincadeira de adivinhar com rodadas de shots para quem pisar na bola.

– Legal. É disso o que eu preciso para me animar.

Ele se aproxima mais de mim, para explicar como a brincadeira funciona.

– Você começa com uma expressão e eu tento adivinhar ao que está relacionada.

– James Bond. Não é 007. Imaginação além do normal. Livro. Celebridades.

Ele abre um sorriso de satisfação e deslumbre, do tamanho do mundo.

– A imaginação imperativa de Olivia Joules.

Bato na testa com a palma da mão.

– Ah, não. Eu achava que seria a mais difícil.

– Eu sou um leitor assíduo, então nada de usar referências a livros. Beba um shot e, agora, é a minha vez. Preparada? A palavra da vez é... coelhos.

Dessa vez, são os meus olhos arregalados que brilham como luminárias pérola.

– Já sei! Coelhinhas da Playbol, edição do colecionador, 1996.

– Não, não é. Você errou. E a palavra certa é Play...boy. Outra chance

– Renée Zellweger gordinha e dentuça, em Os Diários de Bridget Jones.

– Não. Errou novamente. Vou ser bonzinho e dar uma última chance. 

– Coelhinhos da  Páscoa?

– Fim da linha – ele me entrega mais um copo. – Beba mais uma rodada de shot amargo e que rouba mais um ano de vida.

– Eu só passo longe de acertar e, por isso, vou ficar muito, muito bêbada.

– É um preço alto e justo para alguém que está dando sinais confusos.

– Qual é, eu sou uma pessoa estável, apesar dos deslizes.

– Tem razão, não ultrapasse a linha dos deslizes. É perigoso, suado, estranho, e talvez deva ter alguma coisa empalhada muito parecida com você.

Incapaz de me controlar, eu espirro gotículas de shots bem longe e deixo o chão pegajoso de bebida. Por sinal, quantos copos já tomei mesmo? 

Oh, não consigo lembrar. Não consigo mesmo passar do momento em que ele me disse que... Merda, estou zonza e tudo está girando, girando, girando e girando... bem devagar. 

Na verdade, as paredes estão simulando lutas agressivas, ataques de ciúmes e contando fofocas em tabloides. 

Pelo amor de Deus, o que estou dizendo a mim mesma?

*****

Beijos e até a próxima

1 comentários:

  1. Fiquei curiosa para saber como continua a história.
    Começou de forma bem leve e com certa graça. Gostei!
    Que abordagem inusitada para se livrar de uma ex-namorada. Se acontecesse comigo eu fuzilaria o cara com um olhar que ele iria embora para sempre :x
    Bjuxxxxx

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