28 de março de 2015

[O amor não é pra mim] - Capítulo 02 (01X02)

POSTADO POR EM 28 de março de 2015

Olá, pessoal!


Olha mais um episódio de O Amor Não é Pra Mim \o/ Você pode ver o episódio piloto e o primeiro episódio clicando aqui e aqui.




Espera aí.
Eu estou deitada na cama dele, é isso?

Movimento minhas mãos e seguro com força o tecido de veludo do lençol e, sem que eu esteja aguardando, meus dedos tocam o peito nu de alguém... e, pelos contornos, parece ser o peito nu de um homem.  Ah, Jesus. Isso não pode estar acontecendo. Não, não... não! Nervosa, faço esforço para me levantar da cama, pegar a minha roupa que deve estar jogada em algum lugar, porque sinto uma lufada fria tocando o meu corpo usando só uma calcinha de algodão Du Loren, e, ai... a minha cabeça parece estar sendo pisoteada por um grupo de homenzarrões com rastafári correndo em direção a uma loja de carros. 

Malditos shots, maldita vergonha alheia. Devagar, escorrego da cama, encontro minhas roupas sobre uma penteadeira e sapatos e, como se estivesse deixando a cena do crime, abro a porta e deixo o quarto até dar de cara com a sala apertada. Visto meus acessórios, tentando esconder o pudor, e, depois de me certificar que estou pronta, sigo em direção à porta principal. Quando seguro de leve a maçaneta, sou acometida inesperadamente por um bipe quase mudo que soa uma, duas, três vezes, até que...

Merda, ele tem um alarme contra arrombamentos! Essa não.

Então, antes que eu consiga pensar em algo, o alarme explode no som estridente que ressoa pelo loft e me faz encolher no canto da sala. Na dúvida, eu começo a gritar, quando escuto passos apressados vindos pelo largo corredor que separa a sala do quarto onde eu estava até pouco tempo.

– Pelo amor de Deus, o que você está fazendo aí abaixada? – o homem que me abordou no bar e me apresentou como namorada surge segurando um bastão enorme na mão. – Pensei que fossem aqueles moleques que adoram invadir apartamentos alheios e fingir que são normais – diz, recuperando o fôlego e olhando para mim. – Por que você está gritando feito uma louca, como se tivesse acabado de ver um zumbi?

Só agora que percebo que estou abaixada, cobrindo os ouvidos e meu grito ainda está escapando. Fecho a boca rapidamente, com os olhos arregalados.

– Você me deu o maior susto! – digo, levantando-me. – Eu não tinha como saber que era você.

– É claro que sou eu – responde, segurando a parede e deixando escapar o ar que estava preso nos pulmões –, exceto se minha calvície for assim... tão assustadora.

Eu olho para ele, sem a menor expressão de graça no rosto, e então percebo que está vestindo somente calças de um pijama listrado. Meu olhar vagueia pela sua barriga lisa e peluda até encontrar seu peito fortemente desenhado. 

E ali, ele se demora até notar que estou dando muita bandeira. Puxa! 

Eu dormi com o Tarzan. Sou a Jane dele, quase descabelada, à procura de uma corda e um pouco hipnotizada. 

– Você estava indo embora? – ele pergunta de um modo indeciso, mas severo. – Espera. Você estava mesmo indo embora! Que coisa feia.

– Não estava, não – e digo, gaguejando. – Eu só ia... eu só ia... Ah, eu só ia pegar um pouco de ar, porque estava me sentindo sufocada naquele quarto escuro. 

– Se queria tomar ar, deveria ter ido até à janela. Lá é alto e recebe o melhor ar de toda a cidade.

– Não daria certo. Eu tenho medo de altura. De todo modo, a quantos metros nós estamos do solo?

– Cinco andares – ele diz, cruzando os braços. – Isso não assusta nem uma mula.

– Cinco andares são o suficiente para você não conseguir abrir os braços e voar.

Ele está olhando sério para mim.

– Você estava indo embora, não estava?

– Estava. Quer dizer, eu realmente estava – e digo, sem encará-lo depois de uma noite provavelmente “chocante”. – Você estava seminu deitado ao meu lado e eu quase nua, exceto pela minha calcinha de lã. Entrei em pânico, pensei em me jogar pela janela, mas aí pensei que tenho uma vida pela frente e um emprego para correr atrás. 

– Nós só estávamos dormindo na mesma cama. O que tem demais?

– É uma atitude muito, muito arriscada para duas pessoas bêbadas – então, olho para ele, curiosa. – Por favor, por favor, diga que não aconteceu nada. Olha, eu não sou assim, do tipo de mulher que sai com um cara e eles fazem as coisas mais indecentes do mundo na primeira noite. 

– Do que está falando? – ele continua de braços cruzados. – Alguém, aqui, pode traduzir isso?

– Você sabe... – junto os dedos e nem mesmo sei o que estou fazendo.

– O que significa esses dedos girando como uma manivela desgastada?

– Você sabe... Aquela coisa... na outra coisa. 

– Quer fazer o favor de ser mais clara, por gentileza?

Jogo os braços para cima, aborrecida.

– Não finja que não sabe do que estou falando, porque não faz seu tipo ser o cara inocente que tira proveito e, no dia seguinte, tem uma perda de memória. 

De repente, a expressão dele se ilumina com um lampejo.

– Ah, era sobre isso – o sorriso contemplativo se esboça nos lábios. – Puxa vida, ontem à noite você foi incrivelmente... sexy. Sem ser vulgar. Você deixou minha cabeça virada, mexeu comigo, jurou um amor eterno e, antes de nos recolher à cama, cantamos juntos a velha versão de “Oh, Happy Day”.

Perplexa e atordoada, não sinto os movimentos das pernas e, sem as alternativas de que preciso para revidar o insulto, me deixo sentar sobre o sofá. Enterro o rosto nas mãos, perdida e me sentindo sei-lá-o-quê de beira de estrada, e, em seguida, olho para ele. Com uma expressão tranquila e séria, ele está me encarando de volta... até explodir numa gargalhada que reverbera na sala.

– Precisava ver a sua cara! – diz, apontando para mim. – Não aconteceu nada, eu posso garantir.

– Seu maldito cretino! – aliviada, porém aborrecida, seguro a almofada pesada e grande e arremesso em sua direção. Ela passa zarpando a seu lado e aterrissa às costas. – Você simplesmente me enganou! 

– Eu só queria registrar a sua reação espantosa e, acredite, ela foi engraçada – ele diz, sentando ao meu lado. – Tudo bem, pode confiar em mim. Não aconteceu nada do que você está pensando.

– Mas eu acordei praticamente como cheguei ao mundo. Peladinha da Silva.

– O que aconteceu foi que você bebeu shots demais, ficou bêbada de um modo “pouco gentil” e ficou “dando em cima” de um adolescente de quatorze anos que estava passeando com a mãe.

Estou paralisada de choque com essa informação. Eu não esperava por isso.

– Relaxe, a mãe dele não denunciou você – e ele está sorrindo cinicamente. – Na pior das hipóteses, ela abriu uma bolsa suspeita, colocou a mão dentro e você, pensando que ela arrastaria um revólver, caiu de joelhos, chorando e pedindo perdão por todos os seus pecados.

Não deve ser sério. Ele só pode estar de brincadeira. Se bem que... 

– Eu não disse que, certa vez, tive uma crise de riso bem no meio do catecismo, disse?

Ele faz que sim com a cabeça.

– Essa não. O que ela deve ter pensado de mim?

– Terminamos a noite muito bem. E perguntei onde você morava e recebi, como resposta, o nome de um lugar que parecia ser “ocada da pelada” ou “onde Lucicleide fez xixi”. Por acaso, era um enigma que eu deveria descobrir?

Estou tão vermelha que mal consigo olhar para qualquer canto.

– Olha só, me desculpa pelas coisas absurdas que eu devo ter contado.

– Não, não, não – ele abana as mãos. – Foi bem divertido, na verdade. Tinha um bocado de tempo que não me divertia e me sentia tão bem com alguém tão espontâneo.

– O que mais eu disse?

– Depois do lance do “enigma”, entendi que você não deveria lembrar onde era o seu apartamento, então achei melhor você descansar aqui e, na manhã seguinte, partir. O fato de estar só de calcinha foi ideia sua, acho que uma mania. Eu queria dormir no sofá, mas você praticamente me obrigou a ficar cantando alguma coisa até você dormir. E eu peguei no sono também.

– E o que você cantou para me fazer desmaiar daquele jeito?

– Mamonas Assassinas... com a voz do Eddie Murphy. É a única coisa que sei.

Eu começo a rir, sem me controlar. 

– Eu devo estar mesmo ficando maluca. A essa altura, eu deveria estar em casa, dormindo tranquilamente no meu beliche modelo 1976, e respirando o ar das palmeiras.

– Palmeiras?

– Sim, minha mãe adora palmeiras. Ela acha que protegem a casa de mau olhado e namorados interesseiros.

– Parece bastante ousado. Quer um pouco de café forte pra curar a ressaca? 

– Oh, sim, obrigada. Minha cabeça está sendo esmagada por – Ops, melhor não. – ... Quer dizer, deixa pra lá.

Seguimos os dois para a cozinha, ele pega uma chaleira reluzente, enche de água e coloca sobre o fogão. Separa duas canecas enormes da sua coleção e deposita à minha frente. Eu escolho a que tem flores lilás e rosas cor de mostarda. 

– Acha que perdeu o cargo de “colunista dos relacionamentos” mesmo?

– Hum? – digo, voltando para a conversa. – Ah, eles não vão ligar. Não há nada de legal que tenha provocado o interesse de Clarke em mim. 

– Por que você quer tanto falar de relacionamentos com pessoas que, de alguma maneira muito esquisita ou por amor próprio, nunca entenderão como isso funciona?

Olho para o nada, toda sonhadora.

– Eu acredito que tenho o dom de animar e confortar as pessoas que sofrem por amor. Sei lá, é uma... uma... como é mesmo o nome?

– Uma missão?

– Sim, uma missão forte e destruidora. Não destruidora no sentido negativo, mas como um tsumani de escala 4.5.

Ele está me olhando com uma expressão confusa e desorientada.

– Parece que você está mesmo determinada a conseguir o cargo, não é? 

– Absolutamente – digo, apoiando o rosto com os cotovelos. – O problema disso é o Clarke Simões. O Clarke é o único obstáculo que está entre mim e a minha coluna. 

– Então, na verdade, ele é o inimigo mortal.   

– O inimigo detestável, que limita tudo. O mundo deveria demitir o Clarke e, em seu lugar, colocar uma velhinha que se emocionasse com relatos sobre mães solteiras. E, depois de uma longa e generosa conversa sobre políticas e salário, o cargo seria meu, só meu.

– Esse Clarke é mesmo um estraga-prazeres – ele diz, colocando o café nas duas canecas e deixando o aroma preencher a cozinha.

– É grande e inexplicável cretino. Às vezes, sinto vontade de ir até a casa dele e tocar a campainha no meio da madrugada. Eu aterrorizaria o seu sono. Ou criaria perfis falsos no Twitter e espalharia que ele tem o bumbum bem menor que o outro – concluo minha linha de raciocínio, orgulhosa de mim mesma. – Você sabe, seria o fim de Clarke Simões, o homem que conhecemos.

– Bem, acho que não precisará tocar a campainha ou assustá-lo no meio da noite, porque é só aguardá-lo e dizer tudo isso que acabou de me contar.

Isso só pode ser brincadeira. Olho para os lados, desesperada, e, no cantinho da geladeira duplex, vejo uma foto do Clarke, ladeado de um cachorro enorme e do homem que acaba de me preparar um café. Eles estão abraçados e... ah, eu entendi tudo.

– Vocês são... um casal gay?

Ele ri, colocando a caneca de volta no batente.

– Não, ele é o meu pai.

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