14 de março de 2015

[O Amor não é Pra Mim] - Capítulo Piloto

POSTADO POR EM 14 de março de 2015

Oi, galerinha!


E assim começa a nossa jornada. Aqui está o relato comum sobre como funciona o verdadeiro amor em Manhattan. Sente-se, pegue a sua pipoca amanteigada e se deixe espreguiçar na cadeira, enquanto mais um dia nublado e com muito pouco movimento acontece. Confortável? Sim? Então vamos lá.


Duas garotas com ar de mimadas e recém-formadas no colegial sentaram-se no bistrô vintage mais badalado da cidade e, cada uma delas, abriu a sua lista de discussões sobre as férias do próximo verão. Eram sonhadoras, admiráveis, tinham planos perfeitos que dependiam exclusivamente de outras pessoas ou do dinheiro das outras pessoas. 

E o melhor, elas estavam em busca de uma viagem realmente chocante... tipo um itinerário que começasse em Nova York, desse um pulinho nas ruas de pedras do Soho, Brooklyn, e finalmente desaguasse em Manhattan – a cidade iluminadas dos suspiros, da saudade e do famoso “Homem é como coxinha. Você não deixa de experimentar até notar que está ficando viciada, neurótica e gorda”. 
  
No começo daquela primavera animada, as duas chegaram a terras americanas e, pela primeira vez em quase vinte e um anos, puderam sentir o ar ameno das montanhas, o olhar desinteressado e esnobe das pessoas que transitavam pela Times Square e toda a fragrância amendoada dos luxuosos restaurantes. Maravilhadas, conheceram uns amigos no pub local, tentaram parecer descoladas para os “carinhas”, evitaram bebida alcoólica, mas não voltaram para casa sozinhas na primeira noite, pois uma delas conheceu o Sam, um rapaz meio esquálido, olhos enormes e com dentes afiados de esquilo e permitiu que ele dormisse pelo menos aquela noite ao seu lado.

Na manhã seguinte, depois que a lua minguante havia sido substituída por raios de sol escaldantes, o educado Sam se despediu, prometeu que ligaria antes do meio-dia e a convidaria para um passeio por Manhattan. Empolgada, ela aguardou o dia inteiro ao lado do telefone, retocou as unhas, consertou as cutículas, tirou um cochilo preguiçoso bem no meio do sofá macio e, mais uma vez, a noite foi chegando de mansinho no céu.

E Sam não ligou, como havia prometido. Ela deveria ter percebido que, quando um homem diz “não se preocupe, seu número está anotado na minha agenda do celular”, eles querem dizer, na verdade, “a noite foi ótima, mas figurinha repetida não completa o álbum”. Ou coisas do tipo “não te prometi amor duradouro, só uns bons amassos. Agora siga o seu caminho, não olhe para trás e mantenha distância do meu topete”. Tudo bem, não precisava entrar em pânico só porque um babaca não era bem o que você esperava.

Ele era só uma diversão que não havia dado certo, não é?

Na semana seguinte, um fato muito, muito curioso e inesperado aconteceu e as duas se trancaram no banheiro, com uma delas segurando um teste de gravidez.

– Vamos, vamos – ela estava suando frio, sentada de costas para o vaso sanitário –, diga que eu não estou com um bebê dentro de mim.

Parece que o negócio apitou uma, duas, três vezes.

– O que isso significa? Olhe no talão de orientações.

– Significa que tem um bebê aí dentro.

– Ah, meu Deus, agora surgiu no monitor um rostinho sorridente.

– Significa que tem um bebê aí dentro.

– Pare de ficar repetindo isso – berrou, num tom desesperado. – É uma tragédia, uma maldita tragédia grega. Vou ser a primeira mamãe solteira do quarteirão.

– Qual é, isso é um fato absolutamente normal. Quantas mamães solteiras nós conhecemos? Elas têm bíceps definidos e são decididas, caminham de nariz empinado, andam por aí sempre atrasadas e colocando a culpa nos filhos...

– Vivem assanhadas o dia todo, sem tempo para se depilar e, de repente, quando o bebê começa a engatinhar, você já está tão alucinada que provavelmente confundirá gordura localizada com, sei lá... com um pedaço de pneu velho. 

A outra ficou olhando com uma expressão de assustada no rosto.

– Phil Collins tuitou algo parecido – disse a amiga –, enquanto estava correndo na esteira, e teve oitocentas curtidas.

– Phil Collins é homem, Amanda, e não entende nada de bebês. E ele é músico, e não o meu futuro pediatra que cobrará em libras esterlinas.

– Tecnicamente, você já está demonstrando sinais de gravidez. Pânico, estresse e perda de memória. Apagão geral.

Ela não queria ter um bebê antes do primeiro emprego. Em outra época, e isso é a mais pura verdade, Suze ficaria orgulhosa em marcar a barriga com o nome do bebê e exibir na internet, mas, a essa altura... bem, esse não é o tipo de notícia que você chega até alguém e diz “Ei, bom dia, minha placenta mandou lembranças”.

Esse é o tipo de notícia que deve chegar com calma, com bastante calma.

– E agora, Amanda, o que eu vou fazer? Sinto como se alguém fosse me colocar num espeto – ela disse, enterrando o rosto nas mãos. – Na verdade, sinto como se nunca mais fosse ter paz. Meus sonhos serão substituídos por papinhas de neném, pelo número especial da revista MommyTeens edição do colecionador, por um mês procurando minha pedra do parto da sorte, babadores, noites em claro.
Não é um bom currículo para se admirar, no começo, mas...

– Suze, está tudo bem – e Amanda deixa cair a caixa do teste e abraça os ombros da amiga. – Gravidez não deve ser tão ruim. Quer saber meu maior sonho? Ser uma mãe em tempo integral, dessas apegadas e desconfiadas, que não dividem o bebê nem com a própria avó. Quero ser acordada de manhã, jogar meus cabelos, esticar os braços e dizer a mim mesma “Puxa, e mesmo assim, continuo sendo uma estranha sexy”. Escuta só, o que você precisa fazer é procurar o Sam e contar toda a verdade. Ele tem que saber, mas não jogue tudo tão depressa e tente agir com naturalidade, faça gestos chiques, como se estivesse tendo um encontro com o Channing. Você não ia querer assustá-lo, não é?

– Ah, não. Você sabe que isso é demais para mim – Suze responde, sem a menor ideia de como começar a conversa sobre a paternidade prematura de Sam. – A única vez em que tive uma conversa “honesta e reveladora” com alguém, entrei em pânico, peguei minha bolsa e inventei uma desculpa de que precisava fazer um teste grátis de bronquite numa farmácia.

  Amanda começa a rir no mesmo instante e dá um tampinha nos ombros da sua amiga Suze.

– Nada de testes grátis, dessa vez. Só sorria e conte a verdade.

Suze ligeiramente franze a testa e aperta os lábios, deixando à mostra um sorriso cheio de dentes.

– Não esse sorriso aí. Isso é um castor, e não uma pessoa que está prestes a dizer a alguém que está grávida.

Suze abre ainda mais a boca, abana os ombros e revela todos os dentes.

– Não tão afobada e exagerada, como se tivesse inalado o gás do sorriso.

– Viu? Eu sou um completo desastre e serei uma péssima mãe para o bebê.

E assim, de fato, aconteceu. Suze procurou Sam naquela mesma noite e, durante um jantar pouco civilizado no loft, os dois acabaram discutindo feio até o momento em que ele bateu a porta com força, sem olhar para trás e foi embora. E desde então, a Suze nunca mais o viu. Pelo contrário, ela ficou jogada na sala, com as costas contra a porta e completamente perdida. 

Ninguém explicou para Suze como, às vezes, o mundo pode ser cruel com as pessoas. Em dia, você está confiante, olhando pela cortina e admirando um jogo de futebol. No outro, está deprimida, cheia de espinhas na testa, comendo brownies exageradamente e vendo Simplesmente Complicado.   

O amor em Manhattan não é para apagados, que ainda tomam café no Tiffany’s e falam coisas românticas, mas para os que jogam sujo ou pagam na mesma moeda.

(...)

Concluo o meu discurso sobre relacionamentos com um pouco mais de ênfase e entusiasmo. Por um longo e arrastado minuto, olho o relógio na parede, e, em seguida, a mesa polida de onde o chefe da redação está me encarando, sem o menor vestígio de expressão impressionada. Ah, meu Deus, fui um desastre... um completo desastre. Esses tipos de testes, onde a gente precisa inventar alguma coisa de última hora sempre acaba em desastre. Por que os chefes de redação simplesmente não avaliam o seu currículo ou consideram as indicações dos empregos anteriores.

Desde que eles também não tenham sido desastrosos, é claro.

Aqui, à minha frente, Clarke Simões – o maior ícone das colunas sobre namoros, casamentos e relacionamentos em frangalhos, aquele por quem toda mulher suspira para ter um encontro – está simplesmente indiferente ao final do que acabo de contar.

O que, por Deus, está acontecendo com as pessoas? Não há mais sinais de pura compaixão em ser apresentado a um caso infeliz de uma mamãe solteira, que mal saiu do colegial. Em outros tempos, quando alguém costumava se importar com os sentimentos, esse seria o tipo de final trágico que seria retratado nas telas de Hollywood.

O relacionamento seria triste, acompanhando por uma música igualmente triste... o casal se separaria e o cinema inteira sairia pensativo e limpando os olhos.

Clarke continua em silêncio, mas está fazendo trejeitos engraçados e repuxando os lábios; estou começando a achar que ele vai rir de mim. Então, como quem ensaiou a manhã inteira, deixo meus olhos se fecharem e lágrimas escorrem pelas bochechas.

E o sorriso prestes a nascer rapidamente desaparece. Ponto para mim.

– Por favor – ele diz, pegando meu currículo da mesa –, não precisa fazer isso.

– É que eu só queria... – faço força e mais lágrimas rolam pelo rosto.

– Eu ainda estou realmente avaliando tudo o que disse sobre a mamãe solteira na grande Manhattan – ele comenta e se recosta na cadeira estofada de chefe de redação. – É o tipo de amor que a gente não consegue lidar muito bem, mas que acontece. Só faria uma pequena sugestão sobre as ênfases, não expresse demais as suas emoções e procure ser menos espontânea, porque pode confundir o seu leitor.

Fungo, limpando o nariz de forma muito, muito decente.

– É que, pensando como uma mulher, eu também não saberia lidar com o fato de ser uma mãe solteira. Parece tão triste.

– Você trouxe um bom caso – ele elogia e não consigo evitar o primeiro sorriso –, um caso de muita personalidade. E o currículo é, digamos, bem curioso. Por exemplo, aqui diz que você já trabalhou como uma call center, professora de aulas particulares, a “auxiliar das fotocópias preferida do escritório” – e eu me encolho quando ele diz isso – e, ah, isso aqui é... avaliadora de joias?

– Durante algumas semanas – digo, com dignidade. – Quero dizer, não é bem avaliadora de joias propriamente dita. Eu só olhava a qualidade da esmeralda, turmalina, o topázio, diamante, prata australiana, quartzo, são muitos, e dizia a qualquer mulher que me procurasse a intensidade do amor do homem por ela.

– Espera aí. Você media o amor das pessoas pelas joias que davam de presente?

– Sim, e o senhor parece muito assustado com isso – ele está de boca aberta. – O que diria se alguém chegasse ao apartamento, no final de um dia estressante no trabalho, sentasse para jantar e dissesse “Querido, comprei um mimo para você. Estava passando perto da Hollys e olhei para este relógio com brilhantes azuis-lazuli, mas acabo de notar, por tremendo vacilo, que eles são falsos”? Isso acaba com a autenticidade do relógio e demonstra uma completa e desregulada falta de amor.

Ele fica calado, sem saber o que responder.

– Vocês pensam que nos enganam quando entregam diamantes baratos.

– Puxa vida, isso parecia ser tão bem sucedido.

– Na verdade, era bem sucedido, mas aí veio a crise da economia, a globalização e o aumento da franquia dos pulsos na internet. E eu, que não estava preparada, fui pega de surpresa.

– Então... – ele ameaça dizer alguma coisa.

– Mas eu fiz cursos na área, inclusive lapidação oriental.

– Lapidação oriental? Nem sabia que existia.

– Existe, sim. A Daily Word não comenta outro assunto. É uma tradição antiga e que ainda faz o maior sucesso.

Clarke franze a sobrancelha e volta ao currículo, sem mais argumentos.

– Humm, deixe-me ver – e diz, apoiando o queixo nas mãos. – Tudo parece bom. Tenho entrevistas à tarde e, então, vou avaliar as opções para o preenchimento da vaga. Não se preocupe, entraremos em contato assim que chegar a uma conclusão.

– Só por uma pequena curiosidade... ér – limpo a garganta – ... quantas outras se candidataram?

Ele não diz nada em resposta, dando por encerrada a entrevista. Merda. Maldita merda. 

Eu deveria ter ficado calada ou contado que sei fazer as melhores almôndegas da parte tranquila da cidade. 

*****

Então, por hoje é isso pessoal. Fiquem ligados que em breve tem mais!

Beijos e até a próxima!

11 comentários:

  1. Oi Cláudio,
    tudo bom? Gostei do piloto. Isso seria de uma fanfic? Ou de um livro?
    Você expressou muito bem sua curiosidade, e eu adorei a parte do conto, logo ali no inicio. Ri bastante ao longo desse piloto, então imagina no resto? haueaheu Coitada, não conseguiu o emprego :\ ahueahua Beijos,
    www.entreleitores.com

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  2. haha quase morri de rir com o lance do castor.
    Bom dia Claúdio ^^ tudo bom?
    gostei muito do texto <3 na verdade estou in love. a Barb já havia me dito que vc escreve bem, mas não imaginei que era tanto assim *---* sério fiquei envolvida e me diverti durante o texto. vou aguardar mais.
    beijos e até a próxima!
    http://www.seguindoocoelhobrancoo.com.br/

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  3. *o*
    como um homem pode escrever tão bem sobre as "maluquices" femininas? Gente, fiquei em choque, estava lendo tranquilamente e quando vi estava no final querendo mais <3
    Parabéns e please, eu quero esse livro s2
    Valeu a pena esperar

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  4. Ahhh adorei, e estou achando que uma virada de mesa vem ai, e ela conseguirá esse emprego sim!! hahaha

    xoxo
    http://www.amigadaleitora.com/

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  5. Olá, tudo bem?

    Como eu queria ser rico pra fazer um itinerário desses HAHAHA. Nada contra, mas sério que ainda tem gente que acredita no famoso "vou te ligar e a gente combina de fazer algo"? Bom, com uma garota bem fútil como a apresentada, não era de me admirar que ela não seria uma boa mãe, afinal, Suze está apenas colhendo o que plantou. Quis viver uma vida de aventuras e "one night stands", agora arque com as consequências.

    Achei muito bacana a premissa do post, como havia comentado naquele post anterior que você publicou falando sobre a ideia, mas reforço que esse não é meu tipo de leitura, pois não sou fã de livros que ficam debatendo o dia-a-dia das pessoas, seus relacionamentos e tudo mais. Contudo, achei interessante a sua visão sobre o mundo feminino, acho que um livro no estilo "20 Maneiras de Entender as Mulheres" seria um sucesso e todos os homens do planeta te agradeceriam HAHAHAA

    Abraços,
    Matheus Braga
    Vida de Leitor - http://vidadeleitor.blogspot.com.br/

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  6. Oi, tudo bom?

    Morri de rir, é uma fanfic? terá mais continuações? só espero que tenha mais lances como aquele do castor, não imagino como poderá ser o resto!!

    Gustavo Fraga http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  7. Oii!
    Gente, morri de rir aqui lendo essa história!! Comentários como aquele do "Homem é igual coxinha..." ou do sorriso de castor me mataram de rir!!
    Adorei o piloto, a história parece que tem tudo pra ser super divertida e essa personagem tem cara de se meter nas maiores presepadas!
    Beijos
    www.romanceseleituras.com

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  8. Larissa F. Batista16 de março de 2015 20:01

    Gente, espero que o bebê não nasça com cara de esquilo. HAHAHAHA, sucesso para nós!

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  9. Oi!! Muito boa a sua ideia, adorei as personagens, divertidíssimas!
    Vou acompanhar as continuações!

    Beijo,
    Fernanda
    http://oprazerdaliteratura.blogspot.com.br/

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  10. Oie, tudo bom?
    Gostei muito do trecho e fiquei curiosa para saber se haverão continuações? Eu ri na parte das joias, rs.
    Beijos,
    http://livrosyviagens.blogspot.com.br/

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