22 dezembro, 2018

Tá Na Estante :: ‘Vox’

  • Livro: Vox
  • Autor: Christina Dalcher
  • Editora: Arqueiro
  • Páginas: 320
Sinopse: O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade.
Esse é só o começo...
Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir.
...mas não é o fim.
Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

Jean McClellan é uma neurolinguista que tinha um enorme projeto para devolver a fala a pacientes com afasia. Isso até o novo presidente assumir e o caos se instaurar nos Estados Unidos. A bancada evangélica ganhou um enorme poder e o governo foi tirando os direitos das mulheres, um a um. Para eles, as mulheres deveriam apenas servir aos homens e serem donas de casa e, para isso, retiraram seus empregos e uma das coisas mais importantes: sua voz.

Toda pessoa do sexo feminino recebeu um contador de palavras para ser colocado no pulso. Esse apetrecho conta a quantidade de palavras proferidas por cada mulher. O limite é de 100 por dia e se for ultrapassado, as mulheres recebem uma descarga elétrica que vai aumentando a cada palavra dita além da cota. Jean sabe o quanto isso é perigoso e desde que a nova lei foi instaurada ensinou sua filha menor, Sonia, a usar gestos ao invés de palavras, mesmo que isso atrase seu desenvolvimento.

Não fosse o bastante essa mudança, o governo também mudou a forma de educação nas escolas. Enquanto os meninos seguem com um ensino normal, para se tornarem grandes profissionais, as meninas deixam de serem ensinadas a ler e escrever para aprenderem a desempenhar melhor as tarefas domésticas, como cozinhar e limpar. Jean observa tudo isso sem ter como intervir, mas com uma sede de vingança dentro dela, o que pode ser bastante prejudicial.

Certo dia, a família McClellan recebe a visita da comitiva do presidente em casa. Aparentemente, o irmão do homem mais poderoso do mundo sofreu um acidente enquanto esquiava, que prejudicou seu poder de fala. O projeto de Jean é a única chance do homem voltar a falar e o governo quer que a cientista o retome, sob algumas condições. À princípio ela hesita, mas percebe que esta pode ser a sua chance de fazer algo diferente. Contudo, quando Jean inicia seu trabalho ao lado dos antigos colegas, percebe que tem algo muito errado, algo que o governo está escondendo e que pode ser a única chance de mudar o que está acontecendo.

Será que Jean está disposta a entrar de cabeça no jogo, sabendo os riscos que corre? Quando uma novidade abala os alicerces da vida da mulher, ela sabe que tem pouco tempo antes de tudo ruir.  Mas como enfrentar um inimigo tão poderoso com tantas poucas armas? Usando tudo aquilo que ela tem: sua voz.

Querem saber o que vai acontecer? Então não deixem de ler!

***

Meu primeiro contato com Vox foi na Bienal do Livro deste ano, quando a Arqueiro anunciou o lançamento. A obra prometia ser algo bem próximo de O Conto da Aia, então minhas expectativas estavam altíssimas. Por isso, quando o livro foi escolhido para a leitura do mês do Vórtice Fantástico aqui de Porto Alegre, iniciei a leitura bastante empolgado… e terminei com uma enorme frustração.

A escrita de Christina Dalcher é excelente, isso não se pode contestar. Iniciei a leitura na sexta à noite, para o encontro que seria no sábado, e a leitura fluiu tão rapidamente que terminei o livro em uma sentada. A autora soube muito bem explorar as emoções do leitor, fazendo com que me sentisse aflito e ao mesmo tempo tivesse raiva de tudo que acontecia. O grande problema é que isso aconteceu só na primeira metade da obra, como se a Dalcher tivesse esquecido seu propósito em algum ponto e focou em coisas menos importantes.

O livro é narrado em primeira pessoa, sob a perspectiva de Jean. Ela é uma personagem bastante controversa para mim, pois no começo parecia tão disposta a fazer a diferença, mas depois que a ação finalmente iniciou ela se tornou um tanto passiva. Viver em uma casa com um marido que não ama mais e três filhos homens em uma sociedade extremamente machista é bem difícil. Ainda mais com o filho mais velho sendo doutrinado pela escola para acreditar em tudo aquilo que ela abomina. Em alguns momentos eu queria abraçá-la por enfrentar tudo isso, mas em outros queria lhe dar uns sacodes, para tomar alguma atitude.

O fato é que temos um livro que o plot central deveria ser o poder de fala das mulheres sendo tirado, mas que mais da metade do livro a protagonista passa falando normalmente. Entre outras coisas desconexas, como a tal resistência, que até agora não consegui engolir. Tudo pareceu tão fácil, que quando o final chegou, eu só consegui revirar os olhos e aceitar, porque era aquilo que tínhamos pra hoje. Isso sem falar do romance, que teve mais espaço do que deveria. Quando as coisas pareciam começar a fluir, Dalcher dava uma quebra e inseria cenas de paixão entre Jean e Lorenzo, seu amante de anos.

Como eu disse, o final pareceu simples demais. O clímax construído pela autora foi ótimo, mas senti que ela não sabia como desenvolvê-lo e acabou indo pelo caminho mais fácil. Foi tudo tão corrido que eu precisei reler um capítulo de ponta a ponta para entender o que tinha acontecido. Fiquei bem decepcionado, pois se Dalcher tivesse mantido o nível da primeira metade do livro, essa obra teria tudo para ser épica.

Vox não é um livro ruim, mas é uma história que não cumpre o que promete. Porém, na nossa situação atual, é uma narrativa que não está tão longe da realidade e por isso acho que, mesmo com todos os defeitos, merece ser lida. Sendo assim, deixo aqui minha recomendação, mas também o aviso para não esperarem algo tão fervoroso, pois podem se decepcionar assim como eu.

 

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1 Comentário

  • Joyce
    23 dezembro, 2018

    Com certeza já está na lista de desejados!