• Livro: Nocturna
  • Autor: Maya Motayne
  • Editora: Seguinte
  • Páginas: 480
Sinopse: Depois de se libertar da dominação dos inglésios, o reino de Castallan não esperava passar por mais nenhuma crise. Mas Dez, o herdeiro, foi assassinado, e agora nobres e plebeus precisam aceitar que o destino do reino está nas mãos do príncipe Alfie, que passou meses fugindo de suas obrigações enquanto bebia tequila em alto-mar.
De volta a Castallan, Alfie não consegue acreditar que seu irmão morreu e, tentando provar o contrário, se depara com Finn Voy. Graças a sua habilidade de assumir a aparência de qualquer pessoa, Finn está sempre usando um disfarce para se proteger dos traumas de seu passado e de qualquer um que se meter em seu caminho.
Quando os destinos de Alfie e Finn se cruzam, eles acidentalmente libertam uma magia poderosa e antiga que, se não for detida, vai mergulhar o mundo em escuridão. Com o futuro de Castallan em suas mãos, o príncipe e a ladra terão de aprisionar essa magia obscura a qualquer custo, mesmo que, no caminho, precisem confrontar seus segredos mais sombrios.

Oi gente!

Já pensaram em uma fantasia ambientada num espaço que remonta à América Latina? Pois ela existe e eu vou te apresentar.

Neste primeiro livro da trilogia A forgery of magic (sem título em português até o momento), somos apresentados ao princípe Alfher (Alfie), o filho mais novo do rei Bolívar e da rainha Amada, voltando de uma viagem através do mundo  iniciada após seu irmão, princípe Dezmin (Dez) ter sido assassinado em uma conspiração de traição contra a família real. Alfie retorna para assumir suas novas obrigações como herdeiro do trono. Porém, o princípe nunca foi preparado para assumir a coroa e ainda não consegue lidar com a morte de Dez por magia, buscando muitas formas de trazer seu irmão de volta a vida.

Nossa segunda personagem principal é Finn Voy, uma ladra capaz de modificar seu rosto e corpo com magia para se disfarçar pela multidão e nunca ser pega. Finn vive nas ruas de San Cristóbal, capital do continente/reino de Castallan, roubando comida para se alimentar e itens para vender em troca de algum dinheiro para conseguir realizar sua próxima viagem. Em uma noite, em um local secreto para realizar jogos proibidos, o destino de Finn e Alfie irão se cruzar, e os dois passam a ser cúmplices para salvar o reino de uma grande ameaça: Nocturna.

Nocturna me chamou a atenção por ser baseada na cultura latina, mais especificamente da cultura hispano-americana. Contudo, era um livro que me deixava com certo receio, pois fantasia é um daqueles gêneros que muito já se escreveu e o novo precisa de algo extraordinário para que chame atenção, e misturando isso com a cultura latina, pouco trabalhada em livros no geral, tínhamos um impasse: poderia dar muito certo ou muito, muito errado.

Mesmo depois de todos os acontecimentos, a cidade, estranhamente, não havia mudado nada. Mas voltar para casa devia ser assim mesmo, ele supôs. Tudo permanecia igual, mesmo que você não permanecesse.

De início, o livro demorou pra engrenar, tentei começar a leitura algumas vezes, sempre parando no segundo capítulo (quando conhecemos Finn). Com um pouco de esforço, consegui passar deste início que me causou certa estranheza, chegando a uma história envolvente.

O enredo traz sua própria mitologia, seu mito de criação, seus demônios, suas guerras de conquista e libertação, tudo abordado ao longo da narrativa de forma a se encaixar com o contexto em que os personagens estão inseridos (uma cantiga de roda que o princípe ouve nas ruas, livros que estão lendo, memórias de aulas de história e magia, etc.). Essas histórias mitológicas acabam se envolvendo com o presente literário deixando a história ainda mais atrativa.

A voz de Paloma, sua tutora durante a infância, soou em sua cabeça: Magia é uma força que flui pelo mundo, mas precisa de um condutor, um lar. Somos esses condutores, recipientes onde a magia pode crescer. Um não sobrevive sem o outro. Damos vida e propósito a ela e, a seus olhos, cor. E quando terminamos, devolvemos a magia ao éter para que outro a tome.

Os personagens secundários, como Luka, primo de Alfher, são importantes no desenrolar da história, e acabam sendo, até mesmo, personagens curiosos. Um fato bem legal de Nocturna é que a autora traz personagens declaradamente LGBTQI+, apresentados de forma normal, sem escândalos ou mistérios envolvendo a sexualidade ou a descoberta desta.

O enredo apresenta também uma questão política que é evidente mas também pode passar camuflada se o leitor não parar para fazer uma reflexão sobre. São discutidas questões sobre a dominação de Castallan por outro reino chamo Iglésia, logo, no decorrer no texto, encontramos vários tópicos discutindo a dominação do povo de Castallan pelos inglésios, a imposição da cultura, da língua, a retirada de direitos (como o bloqueio do uso de magia pelos dominados), entre outras questões. Estes pontos fazem com que pensemos sobre o domínio de alguns países em culturas que eles compreendem como atrasadas ou inferiores, tanto no contexto histórico do nosso mundo, quando no contexto atual.

Quando iniciei a leitura, não esperava encontrar capítulos sanguinários e sombrios como acontecem, deixando a história muito mais interessante e com adrenalina. A narrativa é em terceira pessoa, com foco narrativo em poucos personagens, narrador onisciente e onipresente, sendo construída de forma a alternar a cada capítulo o personagem em foco, mesmo ambos estando na mesma cena, mesmo contexto. Esta característica traz mais dinâmica para a leitura e passamos a conhecer melhor cada um dos personagens (isto se aplica tanto a Finn e Alfie, quanto ao vilão e alguns personagens secundários).

Finn só queria correr até o palco e cortar as amarras, ver as marionetes desmoronarem e ficarem imóveis. Era melhor não se mover mais do que ter de obedecer aos comandos de outra pessoa.

Algumas críticas negativas ao livro é que para manter a identidade da ambientação na cultura latina, a autora utiliza de palavras, expressões e frases em espanhol que não são, muitas vezes, de fácil compreensão até mesmo para nós, falantes de português e envoltos de falantes do espanhol. Isso me fez sentir falta de notas de roda pé ou um pequeno glossário ao fim do livro trazendo a tradução destes termos.

Outro ponto que considerei negativo foi a sobreposição de histórias. São apresentados muitos planos (núcleos secundários com histórias paralelas) em cima do eixo central da narrativa. Quando uma das histórias paralelas se resolvia, outra já surgia no lugar, ficando uma pouco cansativo, um pouco demorado para desenrolar o livro.

De modo geral, é um livro bom, que completa a história em si mesmo, mas também deixa fios para o desenrolar do segundo e terceiro volumes da trilogia. É o primeiro livro da autora Maya Motayne e já chegou mostrando que ela é uma escritora com muito potencial. Acredito que os fãs de fantasia não se decepcionarão com esta leitura, e ao iniciantes no gênero, é um bom caminho para começar, pois é concisa e objetiva, diferente de grandes clássicos fantásticos como As Crônicas de Gelo e Fogo e Senhor dos Anéis.

BEIJÃO E ATÉ MAIS!

 

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